Ele estava naquele café por coincidência, é claro. As vezes gostava de ir lá, sentir o cheiro de café torrado, ficar em paz com seu expresso, apenas observando aquela parede cor de creme e as pessoas ao seu redor.
Ali se sentia plenamente vivo. Purificava sua alma com aquela bebida forte e escura, com seus olhos miúdos de gente esperta. Enquanto divagava, sentia a plenitude de pensar em Deus, Diabo, na Vida, na Morte e Nela.
Sempre via quando ela chegava, mesmo que sempre de mansinho, como quem tenta não acordar o gato quando passa por ele. Ela se escondia atrás do jornal ou de um livro, que ele fantasiava ter o cheiro dela, e de café, por que era impossível sair de lá sem o perfume único do grão.
O mesmo pedido, as mesmas mordidas lentas e o fone de ouvido sempre por perto. Ela bebia o café, tragava as músicas e ele a sorvia. E quando ela sorria? Ela sempre tinha uma mistura de felicidade e melancolia, e de tanto cuidar dela à distância, começou a perceber que também havia vergonha. Naquele gesto tão sutil e inocente... "Quem diabos teria vergonha de sorrir?" Ele pensava, intrigado por ela. Enquanto também estranhava sua aparente solidão.
Estava virando um ritual, jogar esse bingo de vê-la na cafeteria e adorar à distância aquela garota estranha e solitária. Mas ela que já não ia em dias certos, passou a ir cada vez menos, e assim ele também.
E mesmo sem ter trocado um "Oi" com ela, ele passou a conhecer cada hábito. Ele via quando suas olheiras estavam maiores que o normal, provavelmente de uma noite mal dormida na qual ele queria estar lá e niná-la e vê-la descansar. Ele via quando a música a deixava feliz, e seus pés não paravam de se mexer embaixo da cadeira. Ele sem nem perceber sorria quando ela ia parecendo um pinguim e com casacos demais para o inverno da cidadezinha dos dois. Como ele passou a amar aqueles momentos, ninguém saberá explicar com palavras ou desenhos. O sacro momento de observá-la abrir o livro e fechá-lo um café depois, num santuário com cheiro de café.
Tão súbito quanto sequer começou, na virada da última página daquele romance que nunca terá um começo meio e fim, o último gole do café duplo apenas deixou o aperto no peito e aquele gosto amargo no fundo da boca.
"Ana Maria Camargo"
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