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28 de set. de 2014

Meu mosaico

Em tudo o que eu vejo
Em tudo que toco
Nos cheiros que me invadem o olfato
No gosto de tudo.

Chegou aos poucos,
E costurou sua alma junto a minha.

Quando percebi
Toda silhueta era a sua,
Todo som sua voz.
Todos os doces tinham o gosto do seu beijo
E cada roçar era sua pele na minha.

Me virou a cabeça e os sentidos.
Me fez sua.

E agora o que eu faço?
Com essa confusão de sentidos
E esse medo absurdo
De perder metade de mim?
          "Ana Maria Camargo"

23 de set. de 2014

Sem-teto

O lar
Que deveria ser um lugar
Pra onde se almeja voltar
Não faz mais parte de mim.
Nenhum lugar mais me atrai
Seus braços me parecem cada vez menos aberto.
Não sei para onde voltar.
          "Ana Maria Camargo"

20 de set. de 2014

Franqueza

Eu estava com uma puta ressaca.
Mas não havía bebido uma única gota de álcool nas últimas semanas.
Estava com ressaca de mim mesma.
Estava me rejeitando e regurgitando pensamentos que saíam como pequenas lâminas.
A dor era mais forte do que eu lembrava.
A dor era mais forte do que quando eu me cortei pela primeira vez.
A dor era tão forte que me abraçava até gentilmente.
Somos velhas amigas,
Mas fazia tempo que ela não aparecia assim, de mala e cuia.
Meu porto-seguro estava ameaçado,
Eu estava exposta.
E pouco a pouco todos estavam vendo minha crescente loucura.
Aquela ansiosa agonia se alojou e agora obriga meu coração a trabalhar dobrado e meu estômago se recusa a funcionar.
Como a corda velha de um arco retesado à tempo demais sem descansar,
Eu estou a ponto de estourar.
Literalmente? Talvez.
Ou quem sabe só queira dormir por um longo tempo à espera do fim da ressaca.

          "Ana Maria Camargo"

14 de set. de 2014

Isolada

Do lado de fora de mim
Me viro e reviro
E ainda não consegui um todo para mim.
Sinto-me cada vez mais só.
Incapaz de me expressar
Incapaz de viver plenamente.
Como um observador em uma parede de vidro.

Incapaz de ser somente eu.

              "Ana Maria Camargo"

Objeto

Desnecessária
Decorativa
Parada em um canto,
Jogada às traças.
Quebrada e inútil.
Talvez um brinquedo velho que perdeu a graça.
Talvez um objeto qualquer?
Não.
Talvez somente eu.

                 "Ana Maria Camargo"

11 de set. de 2014

Poema bobo (Jabuticaba)

Não minta para mim sobre você,
Quando não estiver bem,
Ou sobre a roupa que me deixou gorda.
Não minta pra mim,
Sobre a festa que você odiou.
Sobre o amor infinito o mês inteiro
Ou que você babou no meu travesseiro.

Mas mente, mente feio.
Quando disser que acabou o bacon
Que minha meia favorita furou no dedo
Ou que nosso amor,
-Todo esse amor
Não tem mais jeito.
                   "Ana Maria Camargo"