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19 de set. de 2016

O calo

Quando confrontada com as verdades
Que jaziam ali discretas
Tais quais calos nos pés em uma longa caminhada,
Me senti pulsando
Não como alguém em vida,
Ou em algum surto de alegria,
Mas sim como em um abraço frio,
No qual a cada temor
Tive o desprazer de sentir esvair-se.
Congelar-se.
Desfazer-se.
As euforias do dia.
E mesmo colocando ali,
Aquele amparo, o tal curativo
Pude ainda sentir o incômodo.
Talvez o sapato já não sirva mais,
talvez os pés tenham mudado,
Mas o que ficou foi o calo
Roubando os detalhes alegres do caminho.

11 de set. de 2016

Você é como aquele cigarro barato,
Que se encontra solto nas bancas de jornal.
Não é dos mais saboros,
Não é meu predileto,
Mas está ali.
Distraindo meus labios com a fumaça,
Misturada com o vapor da noite fria
Me fazendo brincar com as formas.
Mas você está ali,
Presente quando outra opção não o é,
Afinal, o destino é o mesmo,
O dano é o mesmo,
Então me convença,
De que seu tabaco é o melhor para mim.

Semáforo fechado

Nas luzes rápidas do tráfego, a cidade semi-adormecida, submersa em grossos cobertores para fugir do frio dos corações alheios, paro no meio fio.
Pendente.
Dormente.
Pensante.
Em meio a devaneios de fachadas cinzas, me pergunto como a dor de um passo a mais é relativa.
Forte,
Distante,
Fugaz,
Latente,
Estranha,
Potente.

Indiferente.

E acordo no próximo ponto,
Aguardando a rotina de mais um dia a iniciar

17 de ago. de 2016

Andorinha


Um sorriso largo como a vela de um navio
E olhos de mar e céu .
Eu que já vi neles,
Da calmaria à tempestade.
Hoje presa a terra
Me pego tentando achar esse barco novamente
O torpor me invade a mente
E de repente não sei mais se sonho,
Ou se abro meus olhos para a realidade.
Pois sei que dos verdes mares dos quais sinto a falta,
Só ficarão amargas saudades.

6 de abr. de 2015

Sabe, não sei ao certo quando parei com isso, isso, de rimar e usar linhas para descrever as coisas que tem me deixado maluca. Também não sei ao certo quando passei a precisar de diários. Quando as coisas passaram a ficar tão confusas, quando foi que eu me perdi de mim? Quem era eu de meio minuto atras?
Não sei quando passei a ter medo de mim e do que escrevia, não sei quando passei a policiar meus lápis e a censurar meus pensamentos antes mesmo de dar à luz a eles no papel pardo do meu caderno velho.
Você consegue me acompanhar? Eu talvez não esteja escrevendo coisa com coisa, isso tem sido um pouco normal, por favor complete os espaços com dinossauros abstratos ou fatos quaisquer.
Só sei, que ele tem me feito sorrir, mais do que em todo tempo antes, mas também ele me deixa triste como ninguém. Ele é inocente desse abismo com o qual em algum momento eu me deixei cair, e finjo tão absurdamente que tudo está bem.
Ele se chateia ao me ver com os olhos vermelhos e o nariz escorrendo,e depois de algumas vezes percebi que é melhor deixá-lo fora disso.
Tenho soado tão confusa, até para mim, que apenas estou cada dia mais me desconectando pouco a pouco do mundo, talvez, bem talvez, se eu tomar uma dose bem grande e frequente dele, eu possa passar a ficar mais leve.


Eu apenas queria te contar isso... mesmo que talvez você esperasse outra coisa, ou mesmo não tenha entendido muito bem. Mas algumas coisas estão mudando, e eu estou apenas tentando achar alguém que não tente me explicar para mim mesma.

23 de fev. de 2015

Do ponto de vista da outra xícara de café

Ele estava naquele café por coincidência, é claro. As vezes gostava de ir lá, sentir o cheiro de café torrado, ficar em paz com seu expresso, apenas observando aquela parede cor de creme e as pessoas ao seu redor.
Ali se sentia plenamente vivo. Purificava sua alma com aquela bebida forte e escura, com seus olhos miúdos de gente esperta. Enquanto divagava, sentia a plenitude de pensar em Deus, Diabo, na Vida, na Morte e Nela.
Sempre via quando ela chegava, mesmo que sempre de mansinho, como quem tenta não acordar o gato quando passa por ele. Ela se escondia atrás do jornal ou de um livro, que ele fantasiava ter o cheiro dela, e de café, por que era impossível sair de lá sem o perfume único do grão.
O mesmo pedido, as mesmas mordidas lentas e o fone de ouvido sempre por perto. Ela bebia o café, tragava as músicas e ele a sorvia. E quando ela sorria? Ela sempre tinha uma mistura de felicidade e melancolia, e de tanto cuidar dela à distância, começou a perceber que também havia vergonha. Naquele gesto tão sutil e inocente... "Quem diabos teria vergonha de sorrir?" Ele pensava, intrigado por ela. Enquanto também estranhava sua aparente solidão.
Estava virando um ritual, jogar esse bingo de vê-la na cafeteria e adorar à distância aquela garota estranha e solitária. Mas ela que já não ia em dias certos, passou a ir cada vez menos, e assim ele também.
E mesmo sem ter trocado um "Oi" com ela, ele passou a conhecer cada hábito. Ele via quando suas olheiras estavam maiores que o normal, provavelmente de uma noite mal dormida na qual ele queria estar lá e niná-la e vê-la descansar. Ele via quando a música a deixava feliz, e seus pés não paravam de se mexer embaixo da cadeira. Ele sem nem perceber sorria quando ela ia parecendo um pinguim e com casacos demais para o inverno da cidadezinha dos dois. Como ele passou a amar aqueles momentos, ninguém saberá explicar com palavras ou desenhos. O sacro momento de observá-la abrir o livro e fechá-lo um café depois, num santuário com cheiro de café.
Tão súbito quanto sequer começou, na virada da última página daquele romance que nunca terá um começo meio e fim, o último gole do café duplo apenas deixou o aperto no peito e aquele gosto amargo no fundo da boca.

                 "Ana Maria Camargo"