E de todas as formas que tentou, descobriu que de alguns pensamentos ela só conseguiria se libertar com as palavras...
23 de fev. de 2015
Do ponto de vista da outra xícara de café
Ali se sentia plenamente vivo. Purificava sua alma com aquela bebida forte e escura, com seus olhos miúdos de gente esperta. Enquanto divagava, sentia a plenitude de pensar em Deus, Diabo, na Vida, na Morte e Nela.
Sempre via quando ela chegava, mesmo que sempre de mansinho, como quem tenta não acordar o gato quando passa por ele. Ela se escondia atrás do jornal ou de um livro, que ele fantasiava ter o cheiro dela, e de café, por que era impossível sair de lá sem o perfume único do grão.
O mesmo pedido, as mesmas mordidas lentas e o fone de ouvido sempre por perto. Ela bebia o café, tragava as músicas e ele a sorvia. E quando ela sorria? Ela sempre tinha uma mistura de felicidade e melancolia, e de tanto cuidar dela à distância, começou a perceber que também havia vergonha. Naquele gesto tão sutil e inocente... "Quem diabos teria vergonha de sorrir?" Ele pensava, intrigado por ela. Enquanto também estranhava sua aparente solidão.
Estava virando um ritual, jogar esse bingo de vê-la na cafeteria e adorar à distância aquela garota estranha e solitária. Mas ela que já não ia em dias certos, passou a ir cada vez menos, e assim ele também.
E mesmo sem ter trocado um "Oi" com ela, ele passou a conhecer cada hábito. Ele via quando suas olheiras estavam maiores que o normal, provavelmente de uma noite mal dormida na qual ele queria estar lá e niná-la e vê-la descansar. Ele via quando a música a deixava feliz, e seus pés não paravam de se mexer embaixo da cadeira. Ele sem nem perceber sorria quando ela ia parecendo um pinguim e com casacos demais para o inverno da cidadezinha dos dois. Como ele passou a amar aqueles momentos, ninguém saberá explicar com palavras ou desenhos. O sacro momento de observá-la abrir o livro e fechá-lo um café depois, num santuário com cheiro de café.
Tão súbito quanto sequer começou, na virada da última página daquele romance que nunca terá um começo meio e fim, o último gole do café duplo apenas deixou o aperto no peito e aquele gosto amargo no fundo da boca.
"Ana Maria Camargo"
7 de fev. de 2015
Brainstorm
Sempre pedia das mesmas bebidas,
E sempre estava na companhia da mesma pessoa:
Ela mesma.
Ela acreditava que o hábito deixava as pessoas acomodadas.
Comodidade era uma boa palavras, uma bela definição.
"O suco de sempre moça?"
"Ela sempre senta ali..."
Munida de papel, caneta, fones de ouvido...
E coragem.
Coragem de enfrentar a vida e seguir em frente,
mesmo sabendo que o papel que ela encena não muda nada.
Mas segundo as histórias que lia quando criança,
Sempre existem sapos aptos a se tornarem príncipes, não?
Não, nem sempre.
Hoje em dia ela não vai mais naquele café.
Não se senta naquela mesa para quatro pessoas,
Observando a estranheza de quem passava por ali.
Hoje ela percebeu -finalmente-,
Que as pessoas são confusas demais para ela.
E que geralmente quando alguém te promete o céu,
Está mentindo sobre nunca te deixar cair.
De confusões, bastavam as dela.
"Ana Maria Camargo"
19 de jan. de 2015
Da asa do céu
Um colchão infinito
Que queria partilhar com você
Correr na imensidão
Se perder nas mil cores traduzidas em luz.
Dançando sobre a chuva
E reinarmos soberanos sobre a condensação.
Em cima das nuvens,
Descobri que existe muito mais que ar.
Existem sonhos.
"Ana Maria Camargo"
Uma de amor
E a noite corre aos braços do amanhecer,
E eu espero contando as estrelas para correr para os seus.
E o vento sussurra promessas aos galhos altos,
Assim como você ao pé do meu ouvido.
E assim como devagarinho a erva-daninha de alastra,
Surpreendendo até mesmo o atento jardineiro.
Tombei de amor,
Antes mesmo de perceber que estava já caindo.
"Ana Maria Camargo"
3 de jan. de 2015
Impressões
O que aquele moço parado encostado na porta do bar viu.
O que aquela senhora que está a coser pensou.
O que comentaram em uma foto naquela rede social.
O que foi visto ao se olhar no espelho pela manhã...
Aquilo que a menina que cresceu rápido demais jamais irá entender:
Por que quando se vê um sorriso,
logo se imagina uma pessoa que desaprendeu a chorar?
"Ana Maria Camargo"
13 de dez. de 2014
Novos caminhos
Olho por cima do ombro
E não vejo mais aquela antiga estrada
Aquela alma quebrada e por horas desagradável continua aqui
Mas agora,
como convidada.
A velha casca cheia de cicatrizes ficou para trás,
envolta numa bruma de fumaça e afundada em uma poça de vinho barato.
Agora me acompanham somente a dor refinada,
E o frio de um inverno fora do normal.
Essa estrada nova é ampla,
mas com quase nenhuma luz.
Um passo errado e cairá no abismo (novamente)
Me disse alguém.
E agora sigo tentando remendar o que ficou,
E não lembrar mais daqueles dias.
Mas sei que é em vão,
tentar fugir dos risos e mesmo das falsas alegrias.
"Ana Maria Camargo"